2008/05/22

aqui tão perto do sol

eu sou gente que se inquieta, só a noite é que me acalma (...) / pergunto às estrelas, que o céu abraça, onde foi que me perdi / o sonho fica, a vida passa, / ainda não te esqueci
e se o dia me inquieta a noite traz uma calma aparente e forçada, de sofá e café. de pés ao alto. de fantasmas que me rodeiam. e eu deixo. não os espanto. podem não ser bonitos, mas são companhia.
e eu sou a mais estranha criatura / sobre a terra que sonha o céu estrelado (...) / nada me sei todo me sinto e há-de ser sempre assim
e se sou diferente por ser tão igual, se as angústias são as mesmas em todas as paredes. se nada soa a novo, se nada é viçoso, tudo se repete, sempre na mesma cadência, no mesmo bater, no mesmo som, no mesmo sabor que guardo com os tesouros que colecciono, junto com as cartas e as imagens que me dás sem saberes.
por um copo de vinho te diria / onde o mundo começa e se dilata / onde a veia rebenta e se desata / a fonte da ternura e da alegria
vem. anda. procura-me, ensina-me, mostra-me como se faz. como se está sem se estar. a fugir. com um pé na estrada. com a mão fora da janela a brincar com o vento. muda a estação. a repetição da repetição que não se repete e ainda assim a vejo. se sinto. a repetição. sempre.
margarida, és meu amor / margarida és minha amada
que pena. não me chamar margarida. ninguém chamar-me sua amada. não se usa. gesto antigo. ama-se. deseja-se. um corpo. um ombro. um umbigo. um dedo. a saliva. a oriente. de norte a sul. correndo o corpo. sugar milímetro a milimetro. nada resta sem marca. sem toque. sem selo. teu.
sem ti a minha graça está quebrada (...) / chamar-te pérola pouco é, não chegaria / mergulhador algum te encontraria.
não sou pérola. ninguém me encontra. acham-me? tenho de perder-me primeiro? perdi-me? escondi-me. tão bem. mergulhei. guardei o ar necessário. estou bem. onde?
há tanto tempo que guardo dentro de mim um segredo / é como se o sol se escondesse atrás das nuvens com medo (...) tudo o que sinto por ti é querer-te mais do que a mim, / é ter-te sempre tão perto e é ter esperança até ao fim.
se te cuspo. se te empurro. se te bato. se te maltrato. é a mim. se me escondo atrás das cortinas para te apanhar desprevenido. se te mato de riso. de choro. de fartura. de tudo. saturação. se sou eu. que queres mais?
vai-se o sol e vem a lua / vai-se a lua e vem o vento / vai-se um amor e vem outro / vai-se assim passando o tempo
e entre um ponto e o outro o timoneiro vai às escuras. procuro o ponto ínfimo onde se encontram as entidades que regulam o tempo. onde conspiram a nosso desfavor. porque é curto. porque não passa. porque se estende, preguiçoso. porque corre. porque não o apanho.
se eu soubesse que voando, alcançava meu desejo / mandava fazer umas asas das penas em que me vejo
faço asas, faço panos esvoaçantes. costuro no tempo, os retalhos. as imagens que ficam. os gostos que se demoram. que custam a desaparecer. que vou saboreando. shiuuuu! não se conta a ninguém.
deixa lá e não te rales / deus perdoa o descaminho
troco os pés. não sei qual pertence a que lado. não encaixo as peças no sítio certo. talvez por isso não veja a estrada menos tortuosa e siga na das curvas. cotovelo. onde não se vê o fim. mas sabe-se que chega.
às vezes sinto cá dentro / vontade de não sentir / perco-me em cada momento / e só me apetece partir
mochila. bilhete. chapéu. calções. comboio. mar. areia. verde fresco. azul calmo. amarelo quente. fui.

e a música segue,
senhoras e senhores:
Paulo Ribeiro

1 comentário:

  1. Anónimo5/6/08 22:17

    Percebo-te (acho. ou gosto de achar.) Oxalá o sol te aqueça tanto quanto mereces.

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