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2013/03/14

ain't got no



(...)I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex
I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life , I've got my freedom
I've got the life

And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life 

2013/01/25

novas descobertas....

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Mário-Henrique Leiria, Noivado
(1923-1980)

2012/07/03

regresso devagarinho...

Primeiro fui ficando sem tempo, depois tinha um bocadinho, mas não tinha net. depois tinha net, mas o pc era tão lento que me irritava e quando abria o blogger já me tinha esquecido o que queria dizer. Depois às vezes tinha pc, tinha net, tinha tempo e não tinha nada para dizer. Depois... de repente dei por mim a sentir falta disto. Parece-me que regresso.

Entretanto já conto mais um ano. Já tive muitas prendas (que incluiram um pc novo de onde orgulhosamente escrevo....). Já me cansei da vida de taberneira, já tive saudades. Agora regresso. Já descansei. fui ao Algarve e vim duas vezes. Já quase que estou cansada outra vez. Já fiz uma directa e arrependi-me. Vi os jogos da selecção, irritei-me e emocionei-me e fiquei triste e depois passou-me logo, que com tanta coisa que há para me provocar tristeza, o futebol não pode ser uma delas.

Depois fiquei mais magra e engordei novamente. Perdi o apetite e ele regressou. Vi bons espectáculos de teatro, música. Descobri novas séries. divirto-me com elas e desligo do resto do mundo. Os meus blogues favoritos foram deixando de funcionar. A lista aí do lado deve estar completamente desactualizada.

Gosto do facebook, mas não tanto como do blogue. Se bem que tem os jogos.
Já escrevi textos para o jornal e não publiquei aqui (acho que foi só um). Gosto da forma como isto me diverte. E volto na esperança que o volte a sentir.

Entretanto um texto que não é meu.  Mas que me fez chorar logo pela manhã. E se há causa que deve mexer connosco e nos deve fazer mexer é esta. E escrita assim... quem é que não a sente como sua?!

" "Tens um mano na tua barriga?" - entrou de rompante pelo meu quarto. A mãe, internada no quarto ao lado, tentou demove-la. " Não incomodes a senhora! Anda cá!". Mas ela continuava a olhar para mim, de pé, à beira da minha cama de hospital. Olhos azuis, cabelo louro, 4 anos de gente.
"Também tens um mano na barriga?"- insistia. Pego-a ao colo para se sentar aos pés da cama, leve que nem uma pluma. "Cuidado com o meu cateter!". A mãe, pálida e com ar gasto, grávida do mesmo tempo gestacional que eu, a contar-me da leucemia da filha, dos tratamentos de quimioterapia, da gravidez que pode ser uma esperança de vida, de mais vida ainda, o verdadeiro milagre da vida, para a filha que já vive. Das possibilidades de compatibilidade do novo bebé, que entretanto ganha pouco peso no útero, fruto do sistema nervoso da mãe que, internada, não acompanha pela primeira vez, em dois anos e meio, o ciclo de quimioterapia da filha.
"Tens um Bobi?"- fita-me, a pequena, de olhos pregados no suporte com rodas que me eleva o soro. E a mãe sorri, gasta e cansada, velha no pico dos seus 26 anos, a aguardar um milagre que são dois, agora. O bebé só tem um rim mas não lhe importa. A doença da filha ensinou-a a racionalizar a realidade. "Vive-se só com um rim, eu quero é que ele nasça bem, mesmo que não seja compatível,. Quero- os aos dois, bem! Percebe-me, não é?" Percebo tão bem.
E a menina canta- me aos pés. Elevo-a no elevador da cama, fica alta no cimo do colchão elevado. "Vou tocar no sol!"- e não parece doente, enquanto escorrega pelas minhas pernas, se ri às gargalhadas e folheia um livro que me ofereceu uma leitora deste blog.
A mãe a insistir que me deixe sossegada, sorriso exausto. Está desempregada, " ninguém dá trabalho a uma mulher que tem que faltar uma semana por mês para acompanhar a filha na quimioterapia". E, agora, internada. O marido teve que meter baixa para a substituir- "o dinheiro da baixa não vem logo no mês em que gozamos a baixa, este mês nao sei como irá ser". A filha, tagarela, dá gargalhadas e, por um momento, o sorriso abre-se, alheio aos problemas. Acaricia a barriga, como que a regar o crescimento do bebé que aí vem.
Falamos dos bebés que esperamos. Chega mámen para a visita, senta a menina ao colo, faz-lhe desenhos a pedido. A mãe elogia o jeito dele para desenhar. Mostro- lhe a fotografia da parede do quarto da Ana, pintada por ele. A menina pergunta se ele lhe pode desenhar uma Kitty na parede. Sorrimos os dois, cúmplices. Hoje toleramos a Kitty. Sim, irá pintá-lá, logo que a mãe regresse a casa. A menina salta de alegria.
Chega o jantar, a mãe e a menina recolhem ao seu quarto, não sem antes a pequena insistir: "Tens um mano na barriga?".
Lembro- me das discussões que temos tido acerca da preservação de células estaminais. Banco Público ou empresa privada? Se colocarmos no Banco Publico e aparecer alguém que precise, a nossa filha fica sem as suas células disponíveis. No Privado as células serão sempre guardadas para ela.
E a menina ali ao lado, a precisar de um transplante de medula. Não pode haver egoísmo na humanidade. Nem umbiguismo. Se a nossa filha fosse compatível, não hesitaríamos um segundo, sabemo-lo com o olhar, as palavras não são precisas.
E, finalmente, respondo "Sim, tenho uma (m)Ana na barriga!". Porque todos os bebés deveriam ser irmãos da menina.
A minha sê-lo-á."

Mais informações de como ajudar em:


2012/03/20

Continuo azeda

"E é difícil enccontrar quem não esteja
quando o sistema nos consome e aleija
trincamos sempre o caroço
mas já não saboreamos a cereja"

2012/02/24

Menino do bairro negro

Temos é que ser gente, pá!

Não tenho nada para dizer sobre o José Afonso, que não sejam trivialidades ou factos que todos conhecem. Sei que havia uma cassete lá em casa que eu rebobinava para ouvir o "Natal dos Simples", a minha favorita na altura em que pensava que o nome era Josécafonso.

O que é certo, a ver pelas homenagens, pelas lembranças, pela quantidade de videos youtube a circular por essa net fora é que homens como ele não morrem. O que nos deixam é maior e mais vivo que qualquer organismo.

O que é preciso é criar desassossego.
Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! Acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reconduzidos à condição de homenzinhos e mulherzinhas. Temos é que ser gente, pá! *

José Afonso, 1985

E agora deixo aqui uma das minhas favoritas. Agora que já sei que o nome é Zeca, Zeca Afonso.

* roubado à Nucha


acrescento depois de uns quanto minutos de guerra
com o youtube e com o blogger: o video segue no próximo post,
que neste aparentemente, não é possível....

2012/02/23

Poema Temperamental

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Com certeza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!
Ó caralho!


Joaquim Pessoa

2012/02/18

Vou ver se consigo ver a Olga...



às 21h30 no Pax. Há que aproveitar: as folgas e espectáculos que interessem de facto.

2012/01/31

quanto menos escrevo

mais sou atacada por comentários em línguas estrangeiras e com links esquisitos. espero que a SOPA não dê conta do ataque e não me feche o tasco por achar que eu sou terrorista ou ando a fazer downloads ilegais... aliás é coisa que eu não faço. sou contra. os downloads. (talvez seja melhor escrever em estrangeiro mode os gajos da SOPA perceberem melhor): i don't like downloading movies or tv series. i hate tv series. i hate movies. and music. bhlec....

agora que já me defendi de poderosas ameaças que por aí andam e já não receio que me prendam com fizeram a uns e a outros, já me into mais descansada.

preciso de tempo para pensar aqui, e tempo é coisa que não me assiste, mas vou descobrindo coisas bonitas que assim que as descubro penso que devia colá-las aqui, para não me esquecer. para mais alguém ler. Nem que sejam os gajos da SOPA que bem precisam de umas doses de poesia.

Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma

Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.

Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.

Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.

Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'





2012/01/20

Carta de José Mário Branco ao 15 de Outubro




Tenho acompanhado com interesse, evidentemente, todas as tentativas e experiências que têm vindo a ser feitas por todo o mundo na sequência da "primavera" do Cairo. Mas na minha experiência há um sarro do passado.

Meti-me na política aos 17 anos, estive preso pela PIDE, fugi para França em 1963 e voltei em 1974. Desde 64-65 e até há poucos anos, estive sempre ligado à extrema-esquerda de inspiração maoista. Como não sou realmente um político, mas sim músico, letrista e cantor, nessas pertenças e fidelidades fui sempre guiado por duas coisas:
- os grandes valores que, num artista, naturalmente convocam um lastro de radicalidade e, por outro lado,
- a fidelidade a homens políticos cujos escritos e posições públicas me foram parecendo melhor exprimir politicamente essa radicalidade.

O que me levou a ir entrando e saindo de colectivos onde me sentia em casa. Mas como afirmei pouco antes de deixar o último, que ajudei a fundar: "eu nunca saí de partido nenhum, os partidos é que foram saindo de mim".

As organizações políticas em que participei foram saindo de mim por duas razões principais, e supostamente opostas embora me pareça que são a mesma razão com sinais inversos, razões essas que nada têm de novas porque já vêm desde o último quartel do séc. XIX:
- ou perderam em radicalidade o que ganharam em "realismo", que é o eufemismo que usam para designar a capitulação e a adaptação ao capitalismo;
- ou se confinaram e estiolaram em pequenos grupúsculos, seitas e partidecos que, perdendo o contacto com o real, se satisfazem autofagicamente a proclamar verdades definitivas, directivas infalíveis para as massas e são totalmente incapazes de viverem hoje do modo como dizem querer que seja a sociedade de amanhã, prefigurando-a desde já em si mesmos.

A história da Praça Tahrir é diferente, e eu, que vivi o Maio 68 em Paris e o PREC em Portugal, regozijei-me, como toda a gente de bem, por mais uma queda de um ditador conseguida pelo clamor e pela coragem das ruas. Tempos novos, formas de luta novas.

Tenho tentado reflectir sobre isso e o seu alcance, à luz da única coisa que mantenho bem viva: a minha recusa da iniquidade do capitalismo, a minha exigência de "outra coisa" que "essa é que é linda" (ver, por exemplo, http://passapalavra.info/?p=40478).

Mantenho também um interesse continuado - mas forçosamente à distância - pelos poderosos movimentos sociais de base do povo pobre do Brasil, da Argentina, do México, e de outros países, que têm vindo a lutar por coisas essenciais como terra para cultivar, tecto para se abrigar, direito à água, à cidade, ao trabalho, ao descanso, etc.

Estes, só posso segui-los à distância porque, em Portugal, há tanto tempo que não há nada que se pareça; o povo parece apático, cheio de medo, sem raiva nem desconcerto, sempre bem enquadrado por uma elite de burocratas que há 30 anos o fazem gritar que "o custo de vida aumenta, o povo não aguenta" e a classe dominante a rir-se lá em casa respondendo "aguenta sim senhor, a prova é que gritam o mesmo há 30 anos!".

Convenço-me de que, neste longo caminho aos sacões, deixou de haver - por muito tempo - lugar para generalidades, para proclamações (gerais), para grandes desígnios colectivos. Há lugar, sim, para lutar começando pelo que está perto, pelo que está em baixo, pelo que está agora: o que está mal na minha casa, no meu prédio, no meu bairro; o que está mal na minha empresa, onde por definição não existe democracia, mas que é o centro da minha sobrevivência; na minha escola, seja eu aluno (força de trabalho em formação) seja eu professor (formador de força de trabalho), aquele o produto, este o produtor. Um período que será longo, de lutas defensivas e de lenta reacumulação de forças. O selo de qualidade daquilo a que se chama "lutas" é agora, para mim, a sua concretude, porque a maior parte daqueles que se dizem militantes confundem acção com actividade - e não é de agora.

Plataformas como a 15O são somatórios que só podem ter o peso que é, no melhor dos casos, a soma do peso das suas parcelas. O mesmo direi do que poderão ser o 21 de Janeiro e outras datas afins. O grande erro - parece-me - é que quase toda a gente pensa "o que é que eu vou lá buscar?", quando deveriam pensar "o que é que eu vou lá levar?". É como nos grupos artísticos: a criação colectiva resulta do que se vai pondo na cesta comum ao longo dos dias, esses dias em que parece não se passar nada. É esta a minha visão, completamente wilhelm-reichiana.

E isto passa-se mais assim nas revoltas de "classe média" do que propriamente nas revoltas dos pobres-mesmo-pobres. E acho que percebi porquê. É que, contrariamente aos pobres cuja vida toda é dar sem receber, as "classes médias", que têm ainda muito a perder, não sabem como se pratica o verso de Fernando Pessoa: "Só guardamos o que demos". Duvido até que o compreendam. Por isso "vão lá buscar", em vez de "irem lá levar".

Para o capitalismo, ou antes, para os capitalistas, a produção de bens imateriais (serviços, cultura, lazer) tornou-se desde há muito uma produção em massa para uma massa de consumidores (que são, em grande parte, os seus produtores), como se fossem pão, detergentes, casas ou carros. Mas a "classe média", que está a sofrer um lento processo de proletarização, tem vindo a ser proletarizada (incluindo os profissionais liberais - advogados, médicos, professores, artistas plásticos ou performativos) mas ainda não teve tempo nem experiência para deixar de ser pequeno-burguesa - individualista, idealista, socialmente apática e pusilânime.

[NOTA: eu não estou a afirmar que os proletários têm consciência proletária, bem pelo contrário, infelizmente a esmagadora maioria deles está também impregnada de uma cultura e de uma moral burguesa que lhes é injectada em doses cavalares a toda a hora; mas a própria vida prática se encarrega de lhes tornar evidente a classe a que pertencem; só que, não vislumbrado como sair disso, não se arriscam.]

Daí que, nas acampadas, haja aquele ar de carnaval sociocultural, onde se fala de coisas muito sérias, o que é bom, mas onde o carburante são as palavras em si mesmas, e não o gesto. Não é radicalidade, mas sim e apenas uma transgressão, uma aparência de radicalidade. Vou para o meio de uma praça, levo à boca as mãos em concha e grito "Quero mudar o mundo!"; mas as formiguinhas vão passando de lado, no seu afã de escravas; só fica, eventualmente, quem não precisa de fazer o gesto imediato da sobrevivência. Passe a conversa à Raúl Brandão... mas estou enganado?

O meu tema actual - que, como a palavra indica, está cheio de promessas - é o vazio. "Le creux de la vague". Não, ainda, o súbito recuo do mar na praia antes do tsunami, mas um intervalo côncavo de duração não mensurável entre dois ciclos históricos. Não creio que se possa descer mais fundo, e isso dá-me esperança. É preciso que a juventude "média" dê o salto para o lado de lá, onde estão os pobres a sofrer, muito calados, sem (des)tino. "Vou ao fundo da lama / Do outro lado / Do outro lado da mente / Do outro lado da gente / Do lado da gente do outro lado / Do lado da gente que vive de frente / Da gente que vive o futuro presente" (Margem de Certa Maneira, 1972 (!!!)).

Por isso... talvez apareça, não prometo. Estou a tratar do que está aqui perto: fazer música e mais música, inventar novas canções, novos espectáculos, ajudar outros músicos a serem melhores. Ler e ouvir música. Cantar de vez em quando as canções que tenho para dar ao público. É isso.


José Mário Branco, músico e poeta


Este post foi copiado na íntegra do 2+2=5. Vale a pena passar lá. Esta carta foi escrita por José Mário Branco ao movimento 15 de Outubro e penso que não tenha sido divulgada o suficiente. Aqui fica.

vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79...

Todos os dias há novas formas de sermos enganados, roubados, maltratados... e aqui andamos. Mansinhos, mansinhos, a ver se ninguém dá por nós... não é?! É já um cliché o que se segue, mas não deixa de ser tão a propósito, tão na mouche. A versão integral está aqui, o video está youtube. Por enquanto. Tem 33 anos como Cristo e tal como ele, parece que não morre... não desaparece.
É preciso ser-se muito grande para escrever assim, dizer e tocar e cantar assim. Já de seguida, do mesmo autor, uma carta...

"Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos..."

"Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro!"

"entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!"

"Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar!"

"eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe..."


2012/01/19

Espero que consigam perceber a tempo o que aí vem... *

Retirado de uma resposta no Expresso online.


Há dez minutos atrás, ao preencher o formulário para aderir ao descontinho de 10%, deparo-me com a obrigatoriedade de inserir um NIB para pagamento bancário. Como já tenho pagamento por conta bancária, recorri à menina EDP, através do 808 501 501 (linha dedicada aos patos que querem este descontinho e eu fui um deles).

-Fulana de tal... EDP... em que posso ser útil?

- Estou a tentar preencher online a adesão ao desconto de 10% e não há nenhum campo para indicar que já tenho pagamento pelo banco.

- Este será um novo contrato, por isso tem de introduzir o NIB, mesmo que seja o mesmo.

- Um novo contrato? Porquê?

- Porque a senhora está a deixar de ser cliente da EDP Universal e está a passar a ser cliente da EDP mercado liberalizado.

- E... isso quer dizer o quê???

- Que passa a estar no mercado liberalizado de fornecimento de energia que a TROIKA obrigou.

- E se eu não sair da EDP Universal?

- Mais tarde vai ter de sair, porque o mercado regulado vai acabar, por ordens da TROIKA.

- E vai acabar quando?

- Em 2015 vai deixar de haver.

- Então quer dizer que até 2015 ainda posso estar como cliente do mercado regulado!?

- Sim, mas depois tem de sair.

- E se sair já, o que acontece ao preço que vou pagar?

- Até final da campanha os preços mantêm-se...

- E depois de Dezembro de 2012 (final da campanha)?????

- JÁ PERCEBI! NÃO QUERO ADERIR, MUITO OBRIGADA.

Espero que os caros comentadores e leitores também consigam perceber a tempo o que aí vem.
Cumprimentos.

* Post copiado na íntegra do Mais Évora. Está tudo doido e a tentar enganar o do lado. Olho Aberto!


 

2012/01/18

A HONRA PERDIDA DA POLÍTICA por MANUEL ANTÓNIO PINA

(E eu, com a devida vénia dupla, aqui deixo o post do Santiago Macias no seu Avenida da Salúquia 34. Porque parece-me que já chega.)

Com a devida vénia, como se dizia antigamente, pois a expressão caiu um desuso, aqui vos deixo a magnífica crónica de Manuel António Pina, publicada no JN (www.jn.pt), na qual fustiga um certo e determinado primeiro-ministro:


Que pensaria um cidadão comum se alguém em quem tivesse confiado e com quem tivesse feito um acordo, apanhando-se com o acordo na mão, violasse todos os compromissos assumidos fazendo exactamente o contrário daquilo a que se comprometera?

Imagine agora o leitor que esse alguém é um político que obteve o seu voto jurando-lhe repetidamente que faria determinadas coisas e nunca, nunca!, faria outras ("Dizer que o PSD quer acabar com o 13º mês é um disparate"; "Do nosso lado não contem com mais impostos"; "O IVA, já o referi, não é para subir").

Um político que lhe jurou que "ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam" e que fez o que a própria CE já reconheceu, que em Portugal as medidas de austeridade estão a exigir aos pobres um esforço financeiro (6%) superior ao que é pedido aos ricos (3%, metade).

Um político que lhe garantiu que "não quero ser eleito para dar emprego aos amigos; quero libertar o Estado e a sociedade civil dos poderes partidários" e cujos amigos aparecem, como que por milagre, com empregos de dezenas e centenas de milhares de euros na EDP, na CGD, na Águas de Portugal, nas direcções hospitalares e em tudo o que é empresa ou instituto público.

Quando os eleitos actuam impunemente à margem de valores elementares da sociedade como o da honra e o do respeito pela palavra dada não é só o seu carácter moral que está em causa mas a própria credibilidade do sistema democrático.



2011/09/09

Muito podia eu...

... falar e explicar e gritar (porque de facto é o que dá vontade) sobre as novas medidas de poupança do nosso governo, que claro, trabalha para nós e tem sempre em vista o nosso bem estar. Eu podia explicar as razões, podia enumerar factos, podia. Mas sou um bocado preguiçosa, e assim como assim, já houve quem tivesse dito e provavelmente melhor do que eu alguma vez faria. Assim sendo, e como já fiz isto uma vez e o Samuel Cantigueiro não se chateou comigo, vou arriscar outra vez....


Pílula – Que pena!


Sobre as notícias do fim da comparticipação em três vacinas, sendo uma delas a vacina contra o cancro do colo do útero... e da simples pílula contraceptiva, seria muito fácil dizer que os “filhos da pátria” que tiveram a ideia... não têm noção daquilo que está envolvido.


Não têm noção do esforço que algumas mulheres terão que fazer para encontrar no seu magro orçamento, em vez dos cinco euros habituais, mais vinte euros, todos os meses. Vinte euros... para eles não é nada! Não passa de uma gorjeta somítica, num dos seus restaurantes favoritos.


Não têm noção de quantas gravidezes indesejadas e quantos abortos irão cair no Serviço Nacional de Saúde, causando um muito maior dispêndio de meios... isto, se os abortos não forem feitos “à antiga”, em qualquer lado, com perigo iminente de vida.


Não têm noção de que a quimioterapia que se seguirá a muitos dos casos de falta de vacina, para além de, mais uma vez, ser um dispêndio evitável de enormes recursos, não deixará de evitar muitas mortes.


Seria fácil... mas eu já não estou nessa fase de estado de espírito. Infelizmente, acho que sim, acho que têm noção, mas mesmo assim, para poupar agora uns trocos, não querem saber do dia de amanhã.


Como digo no título, que pena! Que pena, as mães de todos estes “filhos da pátria” não terem tomado a pílula... como e quando deviam!


2011/08/31

Os Blogues de amanhã

têm posts curtinhos. Gosto desses. Sem dizerem quase nada, dizem tudo. E eu que uso as palavras todas que conheço e o que queria dizer continua sem ser dito...