2008/05/04

Sou do contra

Quando toda a gente se lembra, a mim apetece-me esquecer. Apetece-me não ceder, apetece-me fechar as janelas e encerrar-me. Esquecer o festejo e nunca o faço. Acabo sempre por festejar, contrariada, mas festejo. E porque se hoje não desejasse um bom dia à minha mãe estava lixada e faço anos para o mês que vem!! (parvoíce)
Cedo sempre, é certo, mas contrariada. Não vou dizer que festejo nos outros dias todos, que é sempre bom dia para dizer coisas bonitas, que sou muito carinhosa... isso é mentira. Sou bruta como as casas, não me agarro a ninguém a dar mimos, a não ser que me apeteça, e às vezes, muito raramente, apetece-me. E outra vezes, muito raramente, até digo às pessoas que gosto muito delas, e que tenho saudades.
Detesto ser forçada.
Se me sinto pressionada a qualquer coisa, é meio caminho andado para o fazer de mau modo ou não o fazer de todo.
Mas, claro, acabo por ser contagiada com esta felicidade do "Mãe há só uma!" e dou por mim a pensar na tonta que tenho por mãe.
Tem, oficialmente, uns poucos cm acima do metro e meio. Digo oficialmente, porque sei que subornou o senhor do Arquivo de Identificação. Sempre com um sorriso nos lábios, a minha mãe é especial. Primeiro e mais que tudo, porque é minha, (há uma moça em faro que diz que também é dela, mas tenho dúvidas) e para ter uma filha como eu, tem de se ser especial.
Enquanto crescia, (o que não levou muito tempo, como é sabido), não nos demos muito bem, na adolescência então... talvez por sermos parecidas: irritadiças, tontas, distraídas. Agora que já sou crescida...
temos ataques de riso frequentes e esses momentos guardam-se cá na arca dos tesouros. Somos cúmplices no riso e na maldadezinha...
Não lhe conto a minha vida toda, se bem que ela reclame por isso, mas penso que para desgosto já basta o que basta. Ela também não me conta tudo, e nem eu preciso de saber.
Telefona-me a contar o último telefonema da minha avó (a mãe dela), que são sempre hilariantes e eu faço o mesmo. E temos meia hora para falar mal dos colegas e conhecidos, contar a última grande proeza do meu pai, o último disparate da minha irmã e rimos. Durante meia hora rimos ou indignamo-nos com a indignação e o riso da outra.
O riso da minha mãe é contagiante, ninguém fica sério perto dela.
A minha mãe cai muitas vezes ou porque escorrega ou porque tropeça ou porque vai contra qualquer coisa. Isto é genético, vem da minha avó (a dos telefonemas hilariantes) e prolonga-se na família, chegou a mim.
A minha mãe goza comigo.
Lembro-me de estar numa loja de roupa indecisa entre uma mini-saia e uma saia comprida para um casamento e a sugestão materna foi:
"Leva a comprida, filha. Assim não se vê que tens os joelhinhos tortos!" Sim, foi carinhosa, usou a palavra: joelhinhos, mas eu nunca tinha reparado que eram tortos e não precisava de o saber assim...
Claro que quando me lembrar disto ao pé dela e lhe contar, lá vamos nós gargalhar.
E o meu pai que não entende. Que não percebe o motivo de tanta galhofa.
É. Acho que é no riso que mais me lembro da minha mãe. Como da vez em que o meu pai caiu quando se ia a sentar numa cadeira que só ele viu, porque lá não estava. E nós a rir e o meu pai a mandar-nos para a casa de banho que já não nos podia aturar.
É. É no riso que mais me entendo com a minha mãe. No riso, nos disparates, nas piadas tolas. Nas coisas sem graça onde ela encontra um motivo para sorrir.
É na paciência, no instinto de protecção que fazem dela a "mãe" dos miúdos todos com quem trabalha. É no brilho que põe nos olhos dos outros ao falarem dela ou com ela, que vejo a minha mãe.
E hoje mandei-lhe uma mensagem porque não tenho saldo para ligar, (há coisas que não mudam, mãe), e disse-lhe que não gosto mais dela hoje que nos outros dias. E ela não me respondeu (a inabilidade com as tecnologias vai sendo ultrapassada e hoje já manda kolme e tudo!). E ela sabe que é verdade, ainda que não lhe ofereça a jóia ou o carro que me pediu. Enviei-lhe um sms bruto e não lhe disse que ela é a melhor mãe do mundo.
Mas ela sabe que é.
Mesmo que eu não lhe diga.
E agora apetecia-me que ela me agarrasse com as ganas que de vez em quando lhe dão e me apertasse com força e me desse um beijo, e desta vez, mãe, em vez que te dizer aquele "ai" fingido de incómodo, eu apertava-te com a mesma força e dava-te mais beijos a ti que tu a mim.