2012/05/30

Heróis Precisam-se (dos a sério não é dos a fingir) - C.A. 29 Maio 2012


Encontro-me mais ou menos soterrada. À minha volta o caos. Mudei de casa.
Mudanças - se por um lado a perspectiva de substituir os ares me estimula, por outro enche-me de stress e de borbulhas.
Felizmente a minha mudança não interessa a ninguém, assim como aquilo em que a mudança me fez pensar e a verdade é que a falta de interesse daquilo que digo é o que tenho de mais coerente.
Nunca acreditei muito na coisa do fado, do destino marcado. Já a ideia do livre arbítrio... também não me convence totalmente, pois que não raras vezes me encontro em situações onde me é mais fácil assumir que alguém toma conta dos destinos, do que ter sido eu e as minhas escolhas que ali me colocaram.
Os psicólogos podem intervir agora para me esclarecer sobre os padrões de comportamento que nos levam a agir da mesma forma perante cenários semelhantes o que, inevitavelmente, nos colocam uma e outra vez em situações complicadas e chatas. E é quando nos vemos nessas situações que verbalizamos coisas como: “tenho de ir à bruxa”.  Se o azar for como o meu (dos grandes) há-de estar um psicólogo a menos de dois passos que prontamente responderá: “Não senhor! Através de um tratamento psicológico sério talvez possamos inverter essa tendência crónica para a asneira.” 
Enquanto não me posso dar ao luxo de um tratamento adequado às minhas falhas de personalidade e de padrão, vou aliviando a minha consciência - e mais que isso - vou enganando as pessoas que me rodeiam, praticando este malabarismo entre aquilo que são resultados das minhas escolhas (as que correm bem) e aquilo que eu defino como azares da vida, bruxarias, heranças pesadas e uma malfadada sorte que me abandona quando mais preciso.
Aliás, é assim que o mundo funciona. E eu mais não sou que uma migalha de gente nesta engrenagem gigantesca... agora que páro para pensar não sei mesmo se já cheguei ao estatuto de peça da engrenagem – tema para outro interessantissimo texto.
Dizia eu que se é assim que o mundo se governa e governou durante milénios, quem sou eu para alterar o que quer que seja?! Assumir erros, faltas ou defeitos é, por norma, o caminho mais curto para não sermos tidos em conta para nada. O que queremos é gente que não falhe. Gente que quando as coisas correm bem atribuem isso a um óbvio talento para o sucesso, e quando as coisas não correm tão bem é, obviamente, por causa de um azar do caraças, de um governo desmiolado, de uma austeridade que ninguém pediu, de uma herança pesadíssima, mas essencialmente, por causa de um fado negro e triste...
Certo é: alguém que se apresente menos que um herói não vai longe. A gente gosta de é de malta que apregoe em voz alta as qualidades (mesmo as que não tem) e esconda o melhor que pode os defeitos. A gente quer é malta que faça magia. Que transforme as coisas com um movimento de dedos e umas palavras secretas. Que mude isto que temos, num mundo melhor.
É verdade que precisamos de heróis, mas não deixa de ser triste acreditarmos no primeiro que aparece a reclamar para si o título.