2012/05/12


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Deixar copiar? Piratear? 
Sim, claro. À vontade, copiem os meus discos. Pirateiem a minha música à vontade, mas oiçam-na. Eu prefiro que o façam, mas que oiçam, que tentem compreender, gostar, partilhar. Se há coisa que me lixa é que as pessoas digam, como já disseram: "Eh pá, tenho estado a ouvir o teu disco no carro, aquele que começa com plim... plim... plim". Eu não faço discos para ouvir no carro. Não faço.
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Começou a fotografar aos vinte e poucos anos. É uma coisa que leva bastante a sério.
Muito a sério. Não é só um hobby. A fotografia é uma coisa que nasceu naturalmente desta minha paixão de sempre pelo cinema. E da minha vontade de conseguir uma ligação profunda, ainda que abstracta, entre música e imagem. Adoro o acto de fotografar. Fisicamente é um prazer, como tocar piano, uma coisa muito orgânica. A forma como tiro uma fotografia tem muito a ver com' a forma como me atiro ao piano. É difícil explicar... A fazer fotografia oiço música, a fazer música vejo sempre imagens. É uma ligação muito íntima para mim, que ainda não consegui pôr em palco como queria. Além disso, na maioria dos casos, compor para cinema tem sido uma experiência um pouco decepcionante...
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Compõe para cinema, fotografa em sintonia com o que compõe. Só lhe falta mesmo realizar um filme. Nunca lhe ocorreu?
Ocorreu mas... Há aqui uma coisa muito importante que é a avaliação que eu faço das minhas competências. Estou farto de ver isso no cinema como em quase todas as áreas em Portugal. Por isso sou o exemplo: a minha competência não chega para isso. Acho que precisamos cada vez mais disso. De querer ser competentes e de nos queixarmos menos. Sempre que nos queixamos do país, queixamo-nos de nós próprios.
Em Portugal há muita gente sem competência para o que faz?
Sim e não é só no cinema. É tudo. Em todas as áreas. Mas eu testemunho isso sobretudo nos meios em que estou, como este meio do cinema no qual me envolvi e do qual devo confessar me estou a distanciar cada vez mais, em Portugal.
E depois por cá há esta coisa que já me cansa, de andarmos sempre a falar de cinema de autor versus cinema comercial. Eu quero é ver cinema. Ponto. Outro dia estive a ver uma comédia romântica com a Drew Barrymore e o Hugh Grant, "Music & Lyrics". É o dito cinema comercial mas não me digam que não é cinema. Aquilo é muito bem feito. É divertido, é bem feito, bem realizado, bem montado, a música é boa, a fotografia é óptima. Aquilo que eu senti quando eu trabalhei no filme do Anthony Minghella ("O Talentoso Mr. Ripley") - e não estou a dizer a puxar ao pingarelho (risos) - foi uma coisa muito intensa e que na altura me deu imenso entusiasmo. Toda a gente tinha uma função específica, uma especialidade, uma competência, e era nisso que se aplicava sempre com o objectivo de fazer um colectivo melhor.
Diz que está cansado do meio em Portugal mas não me parece que se queira afastar do cinema. Já há projectos lá fora?
Digo cá dentro, porque eu tenho uma visão um bocadinho poética. Eu sou músico, sou pianista, componho e adoro cinema. E acho que posso contribuir para um cinema um bocadinho melhor. Não estou a ser pretensioso. Acho que tenho capacidade para isso. Lá está: acredito que tenho a competência. Estudei música para cinema ao ponto de dizer: "Eu sou competente para fazer isto". Gosto de o fazer em Portugal, porque sou português.
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Falava há pouco com um tom de desilusão sobre o país. Quando liga a televisão, quando olha em volta, o que é que vê?
Um problema gravíssimo: vivemos na era da especulação.
Financeira, jornalística...?
De toda a espécie. Financeira, dos media, de gente a fazer coisas para que manifestamente não tem competência, o que é também uma forma de especulação. Existe especulação em relação a tudo. Desde que os media, e sobretudo a televisão se transformaram numa indústria de conteúdos, e não em veículos de informação, isso acelerou brutalmente. Não é um exclusivo nosso, mas eu sinto-o muito cá, porque sou de cá. Chegámos a um tempo em que tudo se aborda de forma superficial, sem profundidade nem consequências. É preciso ter em consideração que os tempos mudaram e que o fenómeno indústria existe. Mas nem tudo pode viver segundo o fenómeno de vendas. O caso Freeport é grave. O caso Maddie é gravíssimo. O caso Casa Pia é gravíssimo e ainda mais. Fala-se demais, não existe segredo de justiça. Acho tudo isso uma vergonha, choco-me. E choco-me sobretudo por perceber que já não nos chocamos com isso.
Pensa e discute política? Sente-se com vontade de intervir de alguma maneira?
Lá está outra vez: não tenho competência para isso (risos). E a última coisa que eu quero é ser incompetente. Não estou talhado para isso. Não tenho capacidade de argumento, embrulhava-me à primeira frase. Eu não tenho segurança para isso. A única que eu sei que tenho é na música. E também acho que já começo a ter na fotografia. Corre-me nas veias, estudei a sério, ganhei competências. Desde há muitos anos, quando comecei aqui nesta casa (a entrevista decorre em casa dos seus pais).
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entrevista na íntegra aqui