2012/04/06

Correio do Alentejo_14

“Estou velho!/(...)dói-me a parte interna de uma perna/ e parte amiga da barriga/ que fadiga / o que é que eu faço?”


Hesito no tema a que vou dedicar estas linhas mensais e fico a pensar sobre o que me apetecia estar a  fazer. Rapidamento chego à conclusão que aquilo que eu mais desejava estar a fazer neste momento é essencialmente uma coisa: absolutamente nada.

Não gosto de quando não tenho nada para fazer, por isso sou muito boa a inventar formas de entreter o tempo, sem perdê-lo. O problema instala-se quando nunca não há o que fazer – eu sei que é uma forma confusa de expôr o problema, até algo incorrecto do ponto de vista ortográfico/gramatical... mas é exactamente esta a ideia.

Se o mundo se recusa a parar para eu apanhar um bocado de ar e há sempre coisas para fazer, deixá-las de lado para ir ver um filme ou arrumar livros e fotocópias que aguardam desde a última mudança que os alivie dos sacos e caixotes onde estão, resulta num peso de consciência com o qual lido mal.

Assim, o tempo é passado de tarefa em tarefa. E apesar de haver algumas que retribuirão o empenho que lhes dedico na forma de prazer ou satisfação, outras são pura e simplesmente secas épicas, que me forçam a exercícios para os quais não tenho o mínimo de jeito, aptidão ou apetência. Mas ninguém disse que ia ser divertido.

Ora e porque é que me debruço sobre tema tão insonso e pouco apelativo? Porque começo a sentir o peso da idade e palpita-me que daqui para a frente é a decadência absoluta do corpo de sereia/princesa onde a minha alma habita e que durante anos foi a alegria do espelho assim como daqueles que, tendo o privilégio de o ver passar nalguma rua desta cidade, lavavam as vistas...

E a decadência que vejo instalar-se dia após dia está, obviamente relacionada com este gastar permanente de neurónios e energias em tarefas que me consomem o ânimo.

Falo de dores indiscriminadas e generalizadas nas articulações, músculos, tendões e mais: nódoas negras provocadas por encostos (e não pancadas), arranhões (estes perpetrados pelo gato sanguinário), pêlos encravados que se transformam em marcas e cicatrizes. Mas não pára aqui: ele é unhas partidas, cabelo seco a querer espigar, borbulhas cuja origem não se conhece, sobrancelhas que são cada vez mais dificieis de harmonizar com o belo rosto (em decadência é certo) que deus me deu, os pés de galinha instalam-se sem pedir licença a ninguém e a tez torna-se um tanto ou quanto acinzentada e macilenta.

E se durante anos fui massacrada com a pergunta “O que é que foi?” quando aparecia nalgum sítio (a minha cara sempre transmitiu uma ideia de: “já tive dias melhores”), hoje em dia a pergunta das pessoas que vou encontrando é: “dói-te alguma coisa?”. E dói, caramba! Dói mesmo. Há quatro dias que tenho coisas nos ombros, costas e pescoço. Digo “coisas” uma vez que hesito em escrever mialgia de esforço, não só porque  não sei exactamente o que é uma mialgia - apesar de me soar bem - mas porque temo que alguém mais especializado na matéria reconheça aqui uma bacorada mestra e faça chacota de mim. O certo é que há quatro dias acordei com uma espécie de torcicolo generalizado que me obriga a andar extremamente direita e evitar movimentos bruscos. Besunto-me com cremes, pomadas e unguentos, tomo umas pastilhas de ibuprofeno (ah o que eu deseja escrever ibuprofeno num texto) e tenho fé que isto passe – a outra tinha fé na chuva e cumpriu-se...

Ora, então um pouco mais deprimida, mas ainda assim atarefada, resta despedir-me com amizade até ao mês que vem. Ou então não. Depende do efeito da fé e do ibuprofeno.