2011/11/17

Correio do Alentejo 9 - Viva Portugal!

A coisa ainda se levava se fossem só as condições adversas, o trombil ameaçador da Merkel e a baba seca aos cantos da boca do Cavaco. O pior é o resto. A sensação, que não passa, de que algo está irremediavelmente podre no reino da sardinha assada. Senão, vejamos…

O Secretário de Estado do Emprego afirma, convicto, que o ordenado mínimo não é alto, mas também não é baixo. Vê-se que é uma pessoa habituada a fazer esticar o orçamento até ao fim do mês. Até que surge o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais a reclamar para o seu assessor um aumento de dois mil euros. Não é que o assessor vá receber dois mil euros no fim do mês, ele receberá o ordenado estipulado por lei para a sua função, e mais dois mil euros. A seguir temos deputados que recebem um subsidiozito de alojamento, mesmo quando não precisam. Porquê? Porque está na lei! Cumpra-se a lei! Esqueça-se a ética, o interesse nacional, até o bom senso e a vergonha na cara.

Então, em que ficamos?

Pensemos então: se o ordenado mínimo não é alto, mas também não é baixo, quer dizer que é razoável. Qualquer um viveria bem com 485€ por mês. Se os ordenados em questão já ultrapassam este valor, como se podem justificar aumentos de dois mil euros e subsídios milionários para quem deles não precisa?!

Um conselho aos senhores secretários de estado: conversem mais uns com os outros, leiam os mesmos manuais, que assim confundem o pessoal.

Podemos ainda falar sobre a prova de brilhantismo intelectual dada pelo senhor Secretário de Estado da Juventude que, com o dedo em riste apontou, num assombro de genialidade, a saída (literal) para os jovens desempregados: a emigração. Ora aí está! Como é que ninguém ainda havia pensado nisso. Tontos os que resolvem resistir, criar postos de trabalho, investir…

Eu de repente, sem querer, dei por mim a pensar (o que é raro) e posso muito bem ter encontrado a solução para os portugueses que vivem bem com o ordenado mínimo, sem metade do subsídio de Natal e ainda assim planeiam, segundo as estatísticas, gastar 500€ em prendas. Pelo menos para estes, a solução está aí.

Emigremos. Vamos todos embora daqui. Deixemos o rectângulo tumular para quem tem subsídios, aumentos, carros com gasóleo à discrição, seguranças, motoristas... Entreguemos o país à banca e aos bancos. Vamos fazer fortuna lá para fora, trabalhar como gente grande, amealhar e depositar tudo no BPN. Deixemos por cá as Felgueiras, os Isaltinos, os Varas e os Limas desta vida, e partamos à aventura como Vascos da Gama destes tempos. Não há nada a temer - os adamastores ficam por cá. Vamos nós para o Brasil (longe das favelas, que aquilo também anda mau) e eles, para castigo, ficam cá a comer robalos e alheiras que é para aprenderem como a vida pode ser dura.

Não nos desliguemos porém, desta terra que nos viu nascer. Todos os anos, havemos de ser milhões no joelhódromo de Fátima, cada um com o seu fato de treino impermeável, um par de joelheiras de marca, penteado esquisito e os rapazes hão-de trazer brincos na orelha e formas estranhas de falar. Cumprimos as nossas promessas (alguém tem que o fazer) e fazemos umas novas – estamos sempre prontos. Uma semana de Agosto no Algarve, o resto do mês na terrinha, a curtir as festas populares e a emborcar minis e ginjinhas, enquanto desenrolamos rifas nas barraquinhas da feira e viva Portugal.