2011/09/23

Correio do Alentejo 7

Les Enfants de Beja
A ideia parecia tão irreal que o mais certo era não dar em nada, por isso não fazia mal experimentar. E era tão excitante e possível que tínhamos mesmo de arriscar - resultando, resolvíamos parte dos nossos problemas de uma vez por todas, arranjando outros, naturalmente.

Entre visitas, reuniões, decisões, cabeças a carburar a mil à hora, pressas, corações acelerados e uma efervescência colectiva lá se assinaram os papéis, os contratos. Agora já está. É nosso.

Há que deitar mãos à obra. Fazendo-nos valer da nossa melhor cara de pessoa necessitada, encontrámos um grupo muito jeitoso de “escravos voluntários”, que tem estado connosco a cada passo, armados de esfregonas, rolos de tinta, panos, trinchas e tantos outros utensílios necessários à preparação da Grande Inauguração – a 6 de Outubro.

Os Infantes vão-se compondo devagarinho, quase sempre mais devagar do que o desejável - especialmente para quem é, por força da natureza, ansioso - mas hoje é possível dizer que quando a estreia do Ciclo Um Actor - Um Músico (no feminino) fizer abrir as portas do nº 14 da Rua dos Infantes, tudo estará pronto.

Ainda não tivemos tempo para sonhar muito, mas às vezes, nas conversas regadas a lixívia e a sonasol verde, dizem-se coisas: “é provável que tenhamos de abrir a parte de baixo quando vier muita gente” ou “o melhor é deixar aqui esta arca que leva mais minis, senão passas a noite a ir buscar coisas lá baixo” ou “quando isto encher não sei como é que as pessoas vão chegar ao balcão”… Há realmente um manancial de energia positiva naquelas paredes. Mas a culpa não é só nossa, que estamos estupidamente felizes e optimistas, é também de quem tem vindo a alimentar-nos as esperanças e é essencialmente a herança de quem reergueu aquelas paredes para acomodar muito da cultura de Beja há trinta anos atrás.

Há quem diga que a história não se repete, que é feita de ciclos, mas com a nossa imodéstia, acreditamos que estamos a abrir um que representa o retorno a uma época em que a Rua dos Infantes respirava, era viva e tinha gente. Vivemos tempos estranhos em que parece mais fácil e provável que a humanidade regrida – talvez isso faça parte da evolução. Porém, a Lendias é contra corrente e vai tornar um sonho de sempre em realidade: ter um espaço de criação e apresentação dos seus espectáculos; um espaço para receber estruturas de fora, um espaço para ensaios que podem ter, finalmente, quantas horas quisermos. Um espaço para finalmente concretizar O Festival, para fazer exposições, para fazer concertos, performances e outras tantas coisas e actividades que nos lembrarmos e forem possíveis (mesmo que não o sejam, é possível tentar).

Garantida está uma inauguração em grande com quatro performances ao longo do mês de Outubro (três sessões por semana) e mais setenta e tal instalações sonoras, de artes plásticas, registos de voz e pequenas performances levadas a cabo por setenta e tal artistas da cidade. Tudo em redor de quatro nomes maiores da poesia contemporânea portuguesa: Sophia, Gedeão, Nuno Júdice e Adília Lopes.

É megalomania? Nem por sombras! É como a cidade merece e precisa? É! Porque se há urgência de momento é de alegria, de poesia, de criatividade e de sonho.

ACRESCENTO: Acabei de ouvir o novo single do Jorge Palma e é tão adequado ao momento que sinto arrepios (ou então é fome) “Página em Branco”.