2009/12/29

Hoje lembrei-me do Pinto da Ourivesaria

Hoje, por razões tristes, lembrei-me do Pinto da ourivesaria.
Havia uma ourivesaria onde cresci e chamava-se: Pinto. O orgulhoso proprietário do local onde íamos furar as orelhas chamava-se... Pinto.
Era um homem baixo e gordo e com bigode. Tinha um ar bruto, mas não sei se era. O Pinto era casado com uma mulher alta que usava camisas brancas com folhos e tinha uma cara muito corada, e usava muitos fios de ouro.
O casal Pinto tinha dois filhos: um menino e uma menina. O rapaz era mais velho que eu e era enorme (ou assim me lembro), alto e gordo e a miúda era mais nova que eu e era imensa: gorda. Usava vestidos de folhos que lhe assentavam muito mal, mas a culpa não era dela.

Lembrei-me do Pinto porque hoje vi a notícia de que um ourives está prestes a ir a julgamento por ter morto um assaltante. O ladrão foi lá para o roubar e acabou por levar um tiro e morrer. Ossos do ofício, não?! Eu também torci um pé a correr, durante um espectáculo. O Cristiano Ronaldo também deu cabo de um tornozelo.
Bom, na verdade não sei muito bem como me hei-de posicionar em relação a isto.
É justo que o ourives vá preso? Devia antes ter-se deixado assaltar?! Penso que não, mas e agora vamos todos pegar numa arma e desatar aos tiros? Fazer justiça pelas próprias mãos?!

Brecht escreveu uma história que era mais ou menos assim: um senhor e o seu escravo atravessam o deserto. Cada um como seu cantil de água. O senhor acabou a sua água. Já delirava deitado na areia, cansado, esgotado e desidratado. O escravo aproxima-se. Observa o senhor, e mete a mão ao bolso. O senhor imediatamente percebe as suas intenções e mata-o a tiro. O escravo caiu na areia com o cantil na mão. Em julgamento, o senhor foi ilibado, porque ninguém ia adivinhar que o escravo lhe ia dar água e não matá-lo.
Há uns anos, não muitos, uma noite numa qualquer cidade dos Estados Unidos, um homem preto é mandado parar quando conduzia um veículo. A polícia pediu-lhe a identificação. O homem meteu a mão ao bolso e os polícias dispararam uma imensidão de balas na sua direcção. O homem morreu com os documentos na mão. Os polícias foram ilibados. Ninguém ía imaginar que um preto tinha documentos.

7 comentários:

  1. Olá! Eu sei por alto do caso do Ourives. O mais triste, é que se o assaltante tivesse arma, quem acabava morto era o Ourives, ou ferido.... Ok, o Ourives podia tê-lo ferido, mas não lhe ocorreu essa ideia. Eu não concordo com o julgamento do Ourives!!!! A justiça, anda ao contrário e cega, por vezes... beijos e um bom Ano de 2010. Espero que o Natal tenha corrido muito bem, na companhia dos familiares e amigos. um abraço.

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  2. Olha, olha... que coincidência! O Pinto de que falas (esse mesmo, da mulher das camisas de folhos e dos filhos enormes e disformes) é mesmo por baixo da casa dos meus pais...! Ali, ao cimo da Avenida, antes de chegar à BP...

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  3. Todas as terras têm uma Ourivesaria Pinto , a minha também.

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  4. Belo texto, como, de resto, é usual neste blogue, mas... e o outro Pinto, o ourives arguido? Prende-se o homem ou não? Será legitimo exigir-lhe a destreza para imobilizar sem atingir órgão vital? Pedia ajuda, gritava pela polícia? Ou deixava-se roubar e assobiava para o ar?

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  5. Marianne: eu vivi atrás da estátua do bombeiro!!! eh eh bela localidade!

    Camolas: será, mas esta é a mesma!

    Carlos: aí é que reside o problema. O homem tem todo o direito a defender-se, obviamente. Não o censuro. Mas isto não abrirá precedentes?! Passa-se a mão na cabeça e diz-se que está tudo bem?! E se eu entrar numa ourivesaria e o Pinto local achar que eu tenho mau aspecto e quando eu sacar a carteira ele me espeta um balázio porque achou que eu ia assaltá-lo?!

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  6. Olho de Lince: obrigada!

    Nuno: correu tudo bem, bom ano para ti e para os teus!

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