2009/07/09

que há-de ser de nós

Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento
Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã
Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós

Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos
Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Sérgio Godinho e Ivan Lins

Sérgio Godinho20080823120527

ter um m4 faz destas coisas: estamos a chegar a casa e surgem uns acordes belíssimos nos ouvidos, tenho a certeza que é uma das mais magníficas co-produções luso-brasileiras.

2 comentários:

  1. Concordo absolutamente.
    Este tema - poema do português Sérgio, música do brasileiro Ivan -é o melhor exemplo do que podemos encontrar em parcerias que atravessam o Atlântico e falam português.
    Obrigado por nos lembrar estas beldades que a voragem dos dias nos leva a esquecer que existem.

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  2. carlos: temos que ser uns para os outros... ;-) eu é que agradeço a visita e o nascimento de um novo estaminé virtual onde posso meter o nariz e os olhos... fico à espera.

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