têm olhos subitamente azuis e fazem gestos
que lembram o balanço das ondas junto ao porto.
Gritam todas as noites o que não ousariam murmurar
pela manhã na intimidade do quarto - porque na sua boca
remexem duas línguas e uma delas só a reconhecem
do espelho onde já viram desfilar todos os rostos.
Deixam-se coroar por um halo de luz branca
que os persegue e já os atraiçoou de outras vezes.
E comportam-se como pequenos deuses efémeros, sujeitos
às conspirações de uns poucos homens que podem,
com a mesma mão, oferecer-lhes a taça e o veneno -
dobram-se para merecer o seu aplauso ou a sua compaixão.
Depois o pano cai. Vão para casa. E são outras pessoas.
Maria do Rosário Pedreira
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