2009/06/27

Sras. e Sres. a minha nova paixão: Maria do Rosário Pedreira

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi

talvez para sempre - a casa e o cheiro dos livros,

a suave respiração do tempo, palavras, a verdade.
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o


serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.

E protege-o de todos os invernos – dos caminhos

de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe

as feridas devagar, com as mãos e os lábios,

para que jamais sangrem. E ouve, de noite,

a sua respiração cálida e ofegante

no compasso dos sonhos, que é onde esconde

os mais escondidos medos e anseios.


Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz

antes de adormecer. E depois aguarda que,

na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,

ainda que não te tenha revelado uma só vez que o queria.


Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul

que os dias trazem à casa quando são tranquilos.

E nada lhe peças de manhã – as manhãs pertencem-lhe;

deixa-o regar os vasos na varanda e sai,

atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim

haverá sempre sol e para sempre o terás,

como para sempre o terei perdido eu, subitamente,

por assim não ter feito.

1 comentário:

  1. Esta mulher é qualquer coisa de extraordinário. É a minha poeta preferida =)

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