2007/11/27

it's the end of the world as we know it

Há uma seita religiosa russa fechada numa gruta. São (salvo erro) cerca de 30 pessoas incluindo crianças.
Estão fechadas por uma razão plausível: estão à espera que o mundo acabe. Quando isso acontecer só eles se vão salvar.
Mas quem é que os vai avisar quando o mundo acabar?
Mas se o mundo acabar, eles como parte do mundo não acabarão também?
Da bomba nuclear sabemos que só se safam as baratas, mas como esperarão eles que acabe o mundo? e como é que vão saber se já acabou ou se ainda vai a meio? Já há umas centenas de anos que andamos a tentar dar cabo disto e ainda não conseguimos!!

Dizem os rem:
"it's the end of the world as we know it"

e isso acontece tantas vezes, o mundo, tal como o conhecemos, acabar .
Porque a empregada se despede, porque o telemóvel avaria, porque mudamos de casa, porque mudamos de carro, porque mudamos de café ou de bar...

e há sempre aquele dia (a média é um de seis em seis meses) em que o meu olho desperta (mal), fixa os buracos dos estores e decide que tudo vai mudar a partir daquele momento:
vou a pé para o trabalho (é saudável, ecológico e mais económico),
vou acordar sempre a horas decentes mode aproveitar o tempo em condições.
vou comprar o jornal diariamente e mais importante ainda: LÊ-LO!!!
não vou perder horas agarrada à televisão, quando na verdade já não estou a ver nada, apenas a viajar na minha (muito) doente imaginação.
e pelo menos ao fim de semana o jogging é certo: sábado de manhã, fato de treino, iogurte, encontrar um pedaço de verde, dar uso às pernas, e... comprar a literatura de fim de semana, café, e casa. A bela banhoca e nada de tardes desperdiçadas em séries importadas que se repetem a cada seis meses.
o domingo vai ser produtivo, cinema, livros.. essencialmente cultural. É desta que fico uma mulher (que estranha identificação) dinâmica e interessada no país e no mundo.
nada de comida de plástico (mais uma estranha identificação porque já experimentei o plástico e não sabe ao mesmo), só saladas, peixes cozidos, e vá um bifito de quando em quando, mas grelhado.
vou reduzir no café e o tabaco vai deixar de ser uma dependência.
vou passar a ir à depilação todos os meses, cortar o cabelo de mês e meio em mês e meio.
manicure; chega de unhas roidas e cheias de terra.
não saio de casa sem maquilhagem (a indispensável: tapa olheiras, rímel e talvez um pouco de blush, só para dar uma corzinha). há que defender uma imagem cuidada.
não vou adiar as idas ao dentista.
e muito importante: a partir deste dia não visto roupa velha. e combino sempre cinto, botas e mala. vou passar a ter bom gosto! ser elegante.
vou comprar aneis, fios... jóias! é sempre aquele toque charmoso, elegante, que parecendo que não... faz toda a diferença.

eis se não quando o meu olho (o único até agora aberto) finalmente foca (de focar e não o animal). consigo abrir o outro. tempo. focagem. olho para o lado. zoom. focagem. tempo.

"merda, já não tenho tempo para tomar o pequeno almoço"

banho. roupa (1ª que vier à mão). ténis velhos, que não é preciso apertar, têm o molde perfeito do pé. pegar na mala. descer as escadas a correr. o telemóvel em cima da mesa. tempo. vou ou não buscá-lo? tempo. hesitação. volto atrás. regresso às escadas. a meio uma ideia: as chaves do carro?! onde é que pus?!?!?! subo as escadas enquanto vasculho a mala. vou ao casaco de ontem, à casa de banho (às vezes chego aflita e pouso-as na berma da banheira), dou voltas e voltas. decido ir a pé. regresso às escadas. as chaves estão orgulhosamente na fechadura.

entro no carro e aí vou eu!
e afinal....

o mundo continua o mesmo.