O meu avô adoptado (e avô de mais uns 9 macacos que passaram três anos ao meu lado) hoje despediu-se.
O meu avô adoptado era bruto, falava alto e zangava-se muitas vezes. Gritava até parecer que os olhos lhe iam saltar do sítio e levava-nos a pensar "onde é que eu me escondo?"... mas nunca saltavam.
O meu avô adoptado fez uma viagem impossível até França numa carrinha de nove lugares juntamente com oito putos que achavam que eram muito à frente. Nessa viagem havia regras muito definidas: era proibido falar quando ele queria dormir e era proibido dormir quando ele queria falar. Quem desobedecia apanhava com água gelada que ele atirava da garrafa que andava sempre com ele.
Este senhor é açoreano e nasceu no já muito distante ano de 1931. Foi responsável pela reestruturação do conservatório nacional e chamou o Peter Brook para lhe dar uma mãozinha, fundou o Cendrev e a sua escola feita à imagem da de Estrasburgo. Fundou a escola que formou tantos e tantos actores (incluindo eu!). Devolveu vida ao magnífico Teatro Garcia de Resende. Encenou, representou, ensinou... foram 78 anos muito cheios divididos entre França e Portugal.
O que me fica é essa viagem a França, o dia em que fui chamada ao gabinete do director para ser expulsa do curso, porque nessa manhã (e pela primeira vez em dois anos) adormeci e faltei a uma aula (depois arrependeu-se e deixou-me ficar), ficam os cafés no Arcada a falar mal do que nos rodeava, ficam as demonstrações de carinho em forma de empurrões, gritos e esguichos de água da garrafa que sempre o acompanhava, fica a certeza de que em qualquer um dos bolsos (casaco, camisa e calças) que se metesse a mão, se encontrava um maço de tabaco, muitas das vezes Stuyvesant. Ficam os elogios que lhe ouvi a última vez que o encontrei na Praça do Giraldo, numa altura em que era só isso que eu precisava: estava sem trabalho e sem qualquer expectativa de voltar ao teatro. Fica a preocupação com a amiga C., quando ela teve de ser internada e precisava de coisas...
- Tomem lá 2 contos, tragam coisas para a C., ... ela precisa de coisas...
- Oh Mário, mas que coisas?
- Vão ao Modelo, ela disse que lá havia baratas.... cuecas....
Ai C., deves estar devastada e eu ainda não te disse nada. A ti que nunca te faltou um jornal durante esse tempo. Um jornal e um bocadinho de conversa, porque ele não deixou que faltasse.
O Mário era daquelas pessoas que não se pensa como finitas. Daqueles rochedos que ficam e ficam... e sempre cheios de energia e de projectos. E por isso é como se não tivesses ido. E da próxima vez que passar na Praça do Giraldo, vou continuar a tentar ver-te com o chapéu de chuva numa mão e um jornal na outra, a fumar um cigarro e a olhar em volta com ar de poucos amigos. E vou esperar que quando me vires, abanes o chapéu na minha direcção, a ameaçar-me de porrada...
Um beijo muito grande Mário, e garanto-te que o teu desejo e certeza se cumpre: o teu nome não desaparecerá das enciclopédias, deixaste-nos muito. Descansa...
Mário Barradas e Joaquim Benite, foto retirada da net não sei de onde. A de cima é do DN, é ver a notícia aqui

Olá! Acho que ouvi este nome no Cartaz Cultural, na sic. Lamento que o teu Amigo tenha partido numa longa viagem. Lindas palavras que escreveste sobre ele! beijos e um bom fim de semana. força!
ResponderEliminar- Honra a Mário barradas!
ResponderEliminarBela e merecida homenagem, não só ao ser humano, mas ao homem que está já condenado a fazer parte da História do Teatro Português. Talvez o primeiro a enveredar pela descentralização teatral.
ResponderEliminarAssim os homens de hoje e de amanhã saibam honrar o seu legado artístico e exemplo humano.
Que bonito e sentido texto, chéri.Obrigada.
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