2007/08/15

há dias

Há dias em que a distância entre nós se desfaz

em que tudo o que são obstáculos se transformam em razão para nos chegarmos

em que a fome nunca saciada dos corpos fala mais alto que tudo aquilo que nos afasta durante o dia,

todos os dias

Há dias em que tudo é uma boa desculpa para te tocar

Passo horas em busca de pretextos para te chamar, dizer o teu nome em voz alta, ouvir como soa

Há vezes em que digo o teu nome e na minha boca não soa igual à forma dos outros te chamarem

Dessas vezes fico com a certeza absoluta que já toda a gente sabe. Só pela forma como digo o teu nome e soa diferente

Ainda não memorizei como me chamas. Acho que raramente dizes o meu nome. Porque é curto? Porque é feio? Porque tens medo de te enganar? Porque me tornas demasiado real?

A verdade é que também evito dizer o teu nome ao pé de ti, mas porque temo que percebas que não o digo como todos. Porque sei que se o disser nos nossos momentos a dois vais perceber o que não quero que saibas ou tenhas a certeza.

E assim arranjo estratagemas como “Olha lá”, “Ouve”...

E vou resolvendo esse problema de comunicação...

Não pode ser esta a razão que leva os namorados a arranjarem nomes ridículos para se chamarem: “amorzinho”, “fofinho”, “queriducho”...

Não há nada mais ridículo que o mais que vulgar “‘mor...”. Os casais que se chamam por ‘mor, deviam ser abatidos a sangue frio. O nome próprio passa a ser uma arma. Quando os “amorzinhos” se zangam, desaparecem os “fofinhos” e “mores” e dão lugar aos Antónios Manueis, Franciscos Josés, Marias da Conceição e Carlas Susanas....

O nosso próprio nome vira-se contra nós. Não é justo. Se nos querem ferir usem armas novas, não uma coisa que nos pertence desde sempre e nos acompanhará o resto da vida. É para isso que servem os insultos “calhau”, “cuscuvelheira”, “burro”, “chico-esperto”, “aldrabão”, “mete-nojo” e outros que tais.

Cada coisa no seu lugar, o nosso nome não pode ser usado como pedra de arremesso...

Por isso declaro morte imediata aos inventadores de nomes amorosos, que querem mostrar o quão apaixonados estão: “porque precisamos de um nome para nos chamarmos e as pessoas saberem que nos amamos muito, tanto que temos nomes fofinhos que mais ninguém tem”...